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SÓ DOIS EM CADA 10 "PRETOS" NO 5º ANO DE PÚBLICAS SABEM O ESPERADO PARA A SÉRIE EM QUE ESTÃ


De acordo com Francisco Soares, especialista em avaliações em educação e professor da UFMG, apesar de os números serem ruins, há motivos para comemorar: diferenças entre pardos e brancos tem diminuído

Fonte: UOL Educação

Enquanto quase quatro em cada dez estudantes do 5º ano do ensino fundamental brancos de escolas públicas tiveram desempenho na Prova Brasil 2009 em matemática compatível com a série em que estão, apenas dois em dez dos pretos tiveram o mesmo resultado. Essa é uma das conclusões de um estudo da Fundação Lemann, obtido pelo UOL Educação.
"Pretos" é o termo utilizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para se referir a negros. Os outros termos utilizados são "brancos", "pardos", "amarelos" e "indígenas". A pesquisa do instituto tem base autodeclaratória.
Por mais que os resultados dos autodeclarados brancos sejam melhores em todas as séries na qual a prova foi aplicada (5º e 9º anos) e em todas as disciplinas (português e matemática), mais de 60% de todos os alunos, em todas as categorias, não haviam atingido em 2009 o conhecimento adequado para o nível que frequentam (veja números completos nos gráficos abaixo)
De acordo com Francisco Soares, especialista em avaliações em educação e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), apesar de os números serem ruins, há motivos para comemorar.
“No meio de tudo isso, há noticias boas. As diferenças entre pardos e brancos tem diminuído. Não sei se porque mais alunos se declaram pardos. Mas com isso, agregar para políticas públicas os pretos aos pardos é perverso. Favorece os que menos precisam”, diz.
A Prova Brasil é aplicada para alunos do 5º e 9º anos do fundamental de escolas públicas municipais, estaduais e federais, de áreas rural e urbana, que tenham, no mínimo, 20 matrículas na série avaliada. O exame acontece a cada dois anos e os dados mais recentes disponíveis são os da prova de 2009.
Pretos têm os piores índices
O cruzamento, feito pelo economista Ernesto Faria, mostra que, independentemente da série ou da disciplina da prova, os estudantes que se declararam pretos têm os piores índices: no 5º ano, 78,8% deles tiraram nota “abaixo do básico” ou “básico” em português e 80,49%, em matemática; no 9º ano, 83,68% e 93,21%, respectivamente.
No 5º ano, em matemática, esses estudantes não conseguem ler informações e números apresentados em tabelas ou identificar que uma operação de divisão resolve um dado problema. Em português, eles não sabem “inferir o sentido de uma expressão metafórica e o efeito de sentido de uma onomatopeia” ou mesmo localizar a informação principal de um texto.
No 9º ano, tirar uma nota menor que o índice “adequado” em matemática significa que o aluno não consegue fazer operações de adição, subtração, divisão ou multiplicação que envolvam centavos em unidades monetárias e/ou resolver problemas com porcentagens. Em português, eles não podem “identificar o conflito gerador do enredo” ou “reconhecer o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação”.
Soares alerta, no entanto, que a proficiência reflete todos os fatores combinados. “A diferença por raça esconde um fato importante: que os alunos que se autodeclaram pretos são mais pobres. Por isso, buscamos, com ajuda de métodos de análise adequados, obter o efeito puro do sexo, raça, nível socioeconômico, atraso escolar.”
Classificações
As classificações são usadas pelo movimento Todos pela Educação e por alguns Estados para “categorizar” o conhecimento estudantil e têm quatro níveis: “abaixo do básico”, “básico”, “adequado” e “avançado”. Um estudante no nível “básico”, por exemplo, tem domínio mínimo do conteúdo que deveria saber; um do “adequado”, por sua vez, tem domínio pleno. Existem notas mínimas para cada uma dessas classificações (veja na tabela ao lado).