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Pesquisa: Qual o poder socioeconômico dos professores brasileiro?


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Nessa pesquisa, realizada na Universidade de Brasília, o autor investiga qual é o perfil dos estudantes de licenciatura no país. A análise de dados socioeconômicos (gênero, raça, renda) foi elaborada com informações de 197.625 alunos de instituições (públicas e privadas) de ensino superior brasileiras. Nos resultados, constatou-se uma forte relação entre o interesse na carreira de magistratura e baixa renda, pouca tradição escolar e idade mais alta.

A que pergunta a pesquisa responde?
Sempre que sai o resultado de alguma avaliação em larga escala em que, via de regra, o sistema educacional brasileiro é mal avaliado, inúmeras questões são levantadas: afinal, por que nós vamos sempre tão mal? Quem é o responsável por esse desastre anunciado? Como resolver isso? Apesar destas questões despertarem explicações muitas vezes concorrentes, há um ponto de convergência entre todas elas: o professor. Como pontuam diferentes autores, esse profissional é sempre lembrado como um elemento de considerável peso, seja nos resultados positivos ou negativos do nosso sistema de ensino. Mas afinal de contas, quem é esse sujeito sob o qual recai tantas responsabilidades? De onde ele veio? Por que mesmo diante de condições tão adversas e ingratas ainda existem candidatos à esta profissão? Em que condições socioeconômicas se dá sua formação? Foi buscando responder estes questionamentos que a presente pesquisa foi desenvolvida. Para tal, partiu-se de uma abrangente análise de dados socioeconômicos de estudantes matriculados em cursos de licenciatura (formação de professores) de todas as instituições públicas e privadas do Brasil reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação).

Por que isso é relevante?
Apesar de uma análise empírica mais apurada da realidade social da maioria dos professores brasileiros permitir a dedução de algumas dessas respostas, as pesquisas desenvolvidas têm se detido em aspectos mais particulares dessa realidade, como a feminização profissão docente, as condições de trabalho ou o currículo escolar, o que deixa várias dessas questões em aberto. Existe ainda a pouca tradição quantitativa dos pesquisadores em educação, que nas últimas décadas têm feito, segundo os professores Devechi e Trevisan, a opção por um modelo qualitativo de análise a partir de estudos de caso, que dada a própria natureza desses estudos, limitam sobremaneira qualquer inferência mais geral dos seus resultados. Nesse sentido, diante desta ausência de estudos quantitativos que se debruçam sobre os grandes problemas educacionais brasileiros, tais como os diferentes aspectos que envolvem a formação de professores no Brasil, a pesquisa buscou contribuir para a compreensão quantitativa dos aspectos acadêmicos e sociais que ensejam a formação do professor nas instituições de ensino superior públicas e privadas do país.

Resumo da pesquisa

A pesquisa apresenta uma compilação e tratamento de variáveis socioeconômicas de estudantes de licenciaturas no Brasil a partir dos microdados do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) compreendendo uma amostra de 197.625 alunos de instituições públicas e privadas no Brasil. Metodologicamente, o trabalho caracteriza-se como um estudo quantitativo, com especial interesse na descrição e discussão de variáveis socioeconômicas. Objetivamente, buscou-se descrever variáveis tais como sexo, cor/raça, idade e nível de escolaridade dos pais. Subsequentemente, objetivou-se verificar associação entre variáveis tais como curso/renda/cor, curso/sexo/renda, curso/hábitos de estudo, curso/ situação laboral/hábitos de estudo dos estudantes que compõem a amostra. Conclusivamente, discute-se que o Brasil apresenta um perfil de estudantes de licenciatura oriundos de famílias com baixa renda e pouca tradição escolar, o que permite inferir que tratam-se de estudantes mais identificados com a classe trabalhadora e que esse perfil implica diretamente nos motivos e escolha pelo curso de licenciatura bem como no processo de formação do futuro professor.

 Quais foram às conclusões?
O que se pôde concluir é que de um ponto de vista social, a profissão docente no Brasil possui uma origem muito bem definida. Majoritariamente ocupados por estudantes oriundos de famílias de baixa renda com pouca ou nenhuma tradição escolar, os cursos de formação de professores se caracterizam por serem o lugar social reservado nas instituições de ensino superior para os não brancos e por conseguinte, economicamente menos favorecidos. Ao mesmo tempo, foi possível também concluir que a opção pela famigerada e muitas vezes ingrata missão de ensinar se dá de maneira circunstancial: de idade mais elevada que a média geral dos estudantes do ensino superior brasileiro, esses futuros professores veem na licenciatura um lugarzinho ao sol no bacharelesco mercado profissional brasileiro. Só que essa escolha circunstancial produz seus efeitos colaterais: ao ingressarem tardiamente na profissão, esses professores chegam à sala de aula com uma idade mais elevada e com menos treinamento, encarando as angústias do ciclo inicial da carreira docente nas beiradas dos 30 anos de idade, algo bem tardio quando comparado ao ciclo de vida profissional de países desenvolvidos.

 Quem deveria conhecer seus resultados?
 Os dados apresentados fornecem um detalhado retrato quantitativo da identidade social dos candidatos a profissão docente no Brasil, podendo interessar a pesquisadores da área da educação, sociologia e afim, bem como a gestores de instituições de ensino superior que buscam conhecer quantitativamente a realidade social e acadêmica que enseja a formação de professores no Brasil.



 Daniel de Freitas Nunes é graduado em licenciatura plena em história pela Universidade Federal do Tocantins. Desenvolve pesquisas na área de educação com ênfase em camadas populares e educação superior pública e formação inicial de professores. É mestre em educação pela UnB (Universidade de Brasília). Tem experiência no trabalho com base de dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais - INEP/MEC tais como Enade, Censo da Educação Superior e Enem com especial ênfase na discussão de informações socioeconômicas e de desempenho acadêmico. É professor da rede de ensino básico, técnico e tecnológico do IFTO (Instituto Federal do Tocantins). Referências: DEVECHI, C. P. V.; TREVISAN, A. L. Sobre a proximidade do senso comum das pesquisas qualitativas em educação: positividade ou simples decadência? Revista Brasileira de Educação, v.15, n.43, p.148-201, jan./abril 2010. O ‘NEXO ACADÊMICO’ É UM ESPAÇO QUE TEM COMO OBJETIVO PUBLICAR TRABALHOS DE PESQUISA CIENTÍFICA PARA UM PÚBLICO MAIS AMPLO. PARA PARTICIPAR, USE ESTE FORMULÁRIO



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