Chico Mendes Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação criada em 1980 e da qual foi um dos organizadores no Acre.


Chico Mendes sindicalista 


MENDES, Chico
*líder seringueiro; ecologista.

Francisco Alves Mendes Filho nasceu em Xapuri (AC) no dia 15 de dezembro de 1944, filho de Francisco Alves Mendes e de Iraci Lopes Mendes.
Trabalhou como seringueiro desde a infância e só começou a se alfabetizar aos 18 anos quando conheceu Euclides Fernando Távora, antigo militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Preso após o levante comunista de 1935, Távora conseguira escapar da prisão e refugiar-se no Acre, onde passou a viver na floresta.
Chico Mendes atuou até 1975 junto a seringueiros alfabetizando-os e conscientizando-os dos meios empregados pelos seringalistas para explorá-los. Sua atuação desagradava muita gente e por isso chegou a ter que se esconder para não ser preso. Em 1975 ingressou no movimento sindical como secretário-geral do recém-fundado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia (AC). Com a morte do presidente do sindicato, Wilson Pinheiro, assassinado com um tiro na sede da entidade, Chico Mendes tornou-se o principal articulador da categoria.
Em 1976 começou a divulgar uma técnica que criara para impedir o crescente desmatamento da floresta amazônica no Acre, promovida pelos fazendeiros. Conhecida por “empate”, ela consistia na organização de um cordão humano encabeçado por mulheres e crianças que se colocavam à frente dos peões, impedindo assim que eles avançassem para o corte da mata. O “empate”, que funcionava pelo menos até a chegada da polícia, começou a ser utilizado com freqüência cada vez maior pelos seringueiros acreanos.
O objetivo de Chico Mendes, contudo, ia além disso. Sua intenção era criar um fato político que levasse à desapropriação da área e à criação de reservas extrativistas. Nelas os recursos da floresta seriam utilizados de forma racional, sem destruí-la, protegendo-a da ameaça dos projetos agropecuários, dos grandes madeireiros e das inundações provocadas pela construção de hidrelétricas.
Ocupadas por grupos cuja fonte de sobrevivência consistiria na exploração econômica de produtos nativos da floresta, muitos ainda pouco conhecidos, essas reservas teriam como objetivo a conservação do meio ambiente, a manutenção das populações locais que exercessem atividades econômicas tradicionais não degradadoras e o desenvolvimento de pesquisas científicas para o aumento da produtividade e a melhoria de vida das populações amazônicas. Chico Mendes considerava as reservas extrativistas, cujo modelo introduzia um novo conceito de conservação da natureza, como a única solução contra o desaparecimento da Amazônia. A proposta das reservas extrativistas incluía a venda e a industrialização da castanha e de outros vegetais como a copaíba, a bacaba, o açaí, árvores medicinais, o babaçu, o cacau, o guaraná e também o mel de abelha.
Chico Mendes participou em 1977 da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Em novembro do ano seguinte, elegeu-se vereador à Câmara Municipal de Xapuri pela legenda do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime militar instalado no país em abril de 1964. Em 1979, transformou a Câmara num fórum de debates entre lideranças religiosas, sindicais e populares e passou a receber as primeiras ameaças de morte. Acusado de subversão, foi detido e submetido a interrogatórios e tortura por policiais do estado. Suas iniciativas também não eram bem vistas por seu próprio partido. Assim, com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979 e a posterior reorganização partidária, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação criada em 1980 e da qual foi um dos organizadores no Acre.
Ainda em 1980 foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por denunciar a impunidade que acobertava os responsáveis pelo assassinato de Wilson Pinheiro. Processado, acabou absolvido por unanimidade. Em 1981, assumiu a direção do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Candidato a deputado estadual em novembro de 1982, não conseguiu se eleger. Passou a se dedicar então à aproximação entre seringueiros e índios, abrindo caminho para a formalização da aliança entre os povos da floresta.
Como um dos organizadores do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros, em outubro de 1985, Chico Mendes ampliou sua projeção nos meios sindical e popular, fortalecida ainda mais com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros. Essa entidade serviu de ponto de partida para o lançamento da proposta de organização da União dos Povos da Floresta, movimento que reivindicava ao mesmo tempo a reforma agrária e o respeito às terras indígenas.
Em 1987, recebeu representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) em visita a Xapuri para ver os estragos causados por projetos financiados por organismos financeiros internacionais que destruíam as florestas e expulsavam centenas de seringueiros e índios de suas casas. Meses depois esteve nos Estados Unidos reafirmando as denúncias ao Senado americano e à diretoria do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Ainda pouco conhecido no Brasil, mas muito respeitado no estrangeiro, ainda em 1987 Chico Mendes recebeu o Prêmio Global Quinhentos da ONU, concedido à personalidade de maior destaque na luta pela preservação do meio ambiente.
Em 1988, diante do acirramento das ameaças de morte que sofria, teve sua segurança reforçada pelo governador do Acre, Flaviano Melo. Chico Mendes acusava Darli Alves e Alvarinho Alves, irmãos e donos da fazenda Paraná, em Xapuri, de fazer ameaças públicas à sua vida. Eram ambos foragidos da Justiça, com prisão decretada no Paraná desde 1973. Havia indícios de que eram amigos do delegado da Polícia Federal Mauro Spósito e de que já teriam ordenado o assassinato de mais de 30 trabalhadores. Além das ameaças, Chico Mendes enfrentou a acusação de ter atuado como informante da Polícia Federal em 1975, parte da campanha que visava desmoralizá-lo na região. Em contrapartida, ainda em 1988, Chico informou ter conseguido reduzir de forma extremamente significativa o desmatamento em Xapuri, já que fazendeiros só conseguiram desmatar naquele ano 50 hectares de floresta primária — a previsão fora de dez mil. A estratégia utilizada ia além da denúncia visando criar pressões de órgãos nacionais e internacionais contra as queimadas, única forma de reduzi-las diante da incapacidade do IBDF de fazê-lo.
Naquele mesmo ano o Banco Mundial sustou um empréstimo para a pavimentação da BR-364, no trecho em território acreano até Rio Branco, alegando que o projeto não previa proteção das terras dos índios ao longo da rodovia. A decisão do organismo internacional fora tomada, em grande parte, devido à informação de Chico Mendes de que o asfaltamento beneficiaria sobretudo um punhado de grandes proprietários de terra na região.
Chico Mendes foi assassinado em sua residência em Xapuri no dia 22 de dezembro de 1988, apesar de autoridades estaduais e federais, como o presidente José Sarney e o ministro da Justiça, Paulo Brossard, terem sido informadas, oficialmente, e com antecedência, de que ele corria risco de vida. A presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri passou então a ser exercida por Júlio Barbosa. Chico deixou viúva Ilzamar Gadelha Mendes, com quem teve dois filhos. Fora casado anteriormente com Eunice Feitosa de Meneses, com quem teve uma filha.
Os mandantes do crime foram os fazendeiros Darci Alves Pereira e seu pai, Darli Alves da Silva. O crime teria como causa o fato de Darli ter sido impedido por um “empate” organizado por Chico de desmatar uma área de exploração de borracha que adquirira. Além disso, a terra foi desapropriada pelo governo estadual para o estabelecimento de uma reserva extrativista. A partir de então, Darli passou a dizer abertamente que ia matar Chico.
Na imprensa nacional, o assassinato ganhou as manchetes e as primeiras páginas; nos jornais estrangeiros também foi noticiado com destaque, sendo cobrada do governo brasileiro uma postura enérgica para a resolução do crime e a punição dos culpados. Reportagens sobre queimadas na Amazônia tornaram-se então freqüentes nas televisões e em revistas no Brasil e no exterior. Pressionado pela opinião pública mundial, o governo enviou para Xapuri o diretor-geral da polícia federal, Romeu Tuma, e o secretário-geral do Ministério da Justiça, José Fernando Eichemberg. Um mês depois do assassinato foi realizado ato ecumênico no Congresso americano em homenagem a Chico Mendes.
Seus assassinos foram condenados a 19 anos de prisão. Em fevereiro de 1993, fugiram da penitenciária de segurança máxima em Rio Branco, onde cumpriam pena com direito a saídas, ficando três anos e quatro meses em liberdade. Capturados, passaram a cumprir pena no presídio da Papuda, em Brasília.
Em 1989, Ilzamar Mendes vendeu para o cineasta Joffre Rodrigues os direitos de imagem da vida do ex-marido por 1,7 milhão de dólares. Ela contrataria um advogado em 1994 para embargar no México as filmagens que a Warner, subcontratada por Joffre, estava iniciando. Queria mais um milhão de reais.
Em março de 1990, no final do governo José Sarney, as reservas extrativistas foram reconhecidas e oficialmente criadas por decreto-lei. Nesse mesmo ano, Chico Mendes recebeu post mortem o Prêmio Internacional de Meio Ambiente, administrado pela ONU e concedido pela Fundação Sasakawa.
Chico Mendes foi cidadão honorário do Rio de Janeiro e agraciado também com medalha da Sociedade para um Mundo Melhor, em Nova Iorque.
Sobre a trajetória de Chico Mendes foram escritas as seguintes obras: O testamento do homem da floresta: Chico Mendes por ele mesmo — histórias de lutas (organização, notas e introdução de Cândido Grzyborowski, 1989); O Acre de Chico Mendes, de Zuenir Ventura (1989), série de nove reportagens para o Jornal do Brasil,muito premiada; O empate contra Chico Mendes, de Márcio de Sousa (1990), Tempo de queimada, tempo de morte: o assassinato de Chico Mendes e a luta em prol da floresta amazônica, de Andrew Revkin (1990), O mundo em chamas — a devastação da Amazônia e a tragédia de Chico Mendes, de Alex Shoumatoff (1990),Chico Mendes, um povo da floresta, de Edílson Martins; Réquiem para a floresta: desenho-canção para Chico Mendes, de Gervásio Teixeira.
Sônia Zylberberg

FONTES: Imprensa (12/98); MARTINS, E. Chico Mendes; SHOUMATOFF, A. MundoVeja (4/1/89 e 23/3/94).

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