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10 de set. de 2022

Poemas Imparcialistas

José Nunes Pereira


Estou de passagem e não me importo.

Não vou dizer que me importo,

porque realmente, não me importo. 
É patético ver essa multidão esperando um salvador;

aquele que dirá por onde ir,
aquele que trará o que comer e o que vestir,
aquele que dirá o que pensar e sentir,
aquele que fará tudo para o bem estar de seus seguidores. 

Já foi falado que não há um salvador.
Essa gente quer um salvador que facilite suas vidas.
quer vê-lo sacrificando sua própria carne em favor dos seus adoradores.
O salvador e seus auxiliares falam a mesma língua 
e  dizem que sacrificam por todos...

Estou sempre de passagem, sou forasteiro,
não me importo com a crença das pessoas,
não me importo com as promessas do salvador delas, 
estou de passagem e não me importo.
Sou um transeunte, 
porém não posso deixar de notar que as pessoas esperar um salvador.
Gostaria de iludir me e fazer parte de alguma coisa,
gostaria beber disso, escapar e iludir me feito um bêbado.  

José Nunes Pereira  


Quem vai para a outra margem desse rio...

Quem vai para a outra margem desse rio,

não vai para a outra margem do rio,

esse se expande feito o universo 

que se expande a medida que avanço no espaço,

quanto ao tempo, 

fica a ilusão de que existe

dentro do processo de existir sobre muitas formas e estados.


A consciência transpassa a margem do rio da morte,

e sei que não existe margem para o rio da morte,

o rio da morte e o rio vida se trançam e são a mesma coisa,

de certo modo de olhar,

como uma rua após a outra,

um rio após o outro,

um desaguar no universo

e ser a perpétua existência em estados  e formas distintas. 

A eternidade é o perpétuo desaguar no oceano cósmico,

ser deixado na praia,

ser levado pelo mar. 

A consciência paira sobre tudo, 

feito voz sem corpo, é o som consciente de Ser.

J.Nunes 


Dispersão 

A sociedade materialista

foi além do materialismo

e da negação do mundo espiritual,

transformando a espiritualidade em "manifestação cultural".

A espiritualidade faz dualidade com o materialismo,

logo, a espiritualidade e o materialismo existem.

O que é negado é confirmado

pela própria possibilidade de negar e afirmar.

Esta negação da dimensão espiritual do homem,

essa dispersão na diversidade e na multiplicação de si mesmo

na tentativa incoerente e insana de se encontrar;

essa tentativa de se encontrar  na multiplicidade psicológica é igual

a quem caminha em direção oposta de onde quer chegar

e ainda tem esperança de chegar. 

José Nunes Pereira 

POSSIBILISMO

 As lições que meu pai deixou

são feitas de ações que ele não realizou,

caminhei na contramão do que ele fez,

e falo ao contrário do que ele falou.


O mundo não vai parar 

enquanto você lamenta.

Aprendi a caminhar por onde havia caminho,

e abrir passagem onde não havia passagem,

aprendi a comer o que tinha para comer,

e andar por onde dava para andar,

porém nunca deixei de ser otimista,

sempre acreditei que posso derrubar muralhas

feito as trombetas de Jericó. 


O fato de meu caminho ser mais difícil,

o fato de tentarem me impedir o caminho

não me faz melhor nem pior que ninguém,

isso apenas mostra que eles tem medo,

porque eu não me sinto subjugado.


O porque de eu ter essa dificuldades na vida

é questão reencarnacionista,

e as compreendo ao meu modo espiritualista.  


J.Nunes 



Vaporoso 

Ser qualquer coisa é sempre um desperdício.

Não quero ser muito intensamente,

prefiro ser um personagem,

ser por um instante...

um breve instante de ser.

É tanta gente chata impondo ser isso,

aquilo e tudo isso,

e eu não quero ser nada, 

ser é cansativo. 

O que eu sei é que tem que haver consistência em ser,

tem que existir unidade de ser,

ser disperso é vaporoso e impermanente,

porém afirmar ser qualquer coisa é tão utópico quando afirmar ser tudo...

melhor é não tentar ser qualquer coisa,

melhor é não auto-afirmar  em nada.

De todo modo se é tudo e não se é nada.

Tanto faz, evaporo feito a fumaça do cigarro,

mais vale ficar a observar que sou tão dissipável 

quanto a fumaça do cigarro.

Esse que vê que sou  vaporoso e inconsistente 

é o que tenho de mais próximo da unidade e da concretude de ser. 


J.Nunes 

http://www.literaturaimparcialista.com/


Lamentações 

A alegria de viver o momento,

a consciência de existir a cada instante

é a única autoafirmação que, definitivamente, compensa.

A lamentação é tão patética,

o passado está em nossa memória e em nosso sentimentalismo;

está apenas lá, não tem qualquer consistência no mundo,

o futuro é outra forma de lamentação incongruente,

lamentamos a vida como quem senta na areia 

e lamenta a morte da onda que se desfaz na praia. 

Somos nos que paramos para lamentar nossas memórias,

o ciclo infindável da vida e da natureza continua

e não se importa com nossas lamentações,

a natureza se alimenta de si mesma, e chamamos essa autoalimentação 

de vida e morte. 

Quanto mais lamentamos,

mais perdemos nossa consistência de existir dentro das memórias lamuriosas,

mais ficamos presos a essa roda da vida e da morte 

que é vida que se autoalimenta. 

Vale mais estar aqui ao pé no mar,

afirmar esse alegria de estar ao pé das águas 

e ser eu mesmo, como toda potência de ser agora. 

J.Nunes 

http://www.literaturaimparcialista.com/

As Classes dos Incultos

O governo dividiu o seu país em classes e subclasses,

Os mais ricos estavam na classe A,

Os  menos ricos estavam na classe B

Os pobres estavam na classe C,

os mais pobres estavam na classe D,

os miseráveis estavam na classe E;

porém as classes ainda estavam divididas em subclasses,

A+ rico  e culto,  A- rico e sem cultura,

B+ menos rico e culto, B- menos rico e sem cultura,

C+ pobre e culto,  C- pobre e sem cultura,

E+ miseráveis cultos, E-  miseráveis e sem cultura.

Os critérios do Governo para considerar um indivíduo culto 

era a sua aceitação ao sistema de Governo e sua política;

por esses critérios eram distribuídas as oportunidades e as riquezas. 

Muitos indivíduos eram realmente "equivocados sinceros" 

muitos outros eram demagogos, hipócritas e oportunistas;

Aqueles tidos como incultos pelo governo

eram sinceros a suas convicções 

e não se vendiam em troca de benefícios e oportunidades;

esses conseguiam se manter nas classes e até mesmo subir 

na classe dos incultos com muito sacrifício e astúcia,

porém jamais fariam parte da elite culta do país.

O Governo do país  não ignorava que entre as classes não havia equilíbrio

e que não era possível o relativismo 

e o  nivelamento nem mesmo dentro das classes;

haviam conflitos, aflições, invejas, sofrimentos, dúvidas, doenças, indiferenças, disputas...

dentro de todas as classes e nas subclasses das classes,

Os indivíduos não atendiam rigorosamente aos parâmetros de cidadão perfeito,

segundo os padrões do governo. 

Para resolver as questões o governo adotou um critério muito objetivo:

Aceitar, não questionar e militar  a favor do governo.

Os equivocados sinceros são os melhores cidadãos;

porém não participam do jogo, 

simplesmente porque não compreendem o jogo.  

Quando o Governo percebeu, na prática, que era impossível

unificar os indivíduos e ao mesmo tempo 

representar a todas e atender a todas as diferenças dentro dos grupos,

o Governo criou o critério da Manutenção do Poder 

pela aceitação do indivíduo ao Governo. 

O individuo passava a ter a sua individualidade respeitada

a partir do  momento que aceitava defender o Poder vigente.

Era uma espécie de conversão que garantia o perdão, a liberdade e a oportunidade.

O Governo do país pensou que havia encontrado uma ideologia perfeita para sua nação,

no entanto, dentro das classes cultas começou surgir a cobiça, 

a inveja, o medo, a ganância, a intriga...e, naturalmente, ocorreu separações 

dessas classes cultas em cultos radicais, cultos moderados

e cultos equivocados que não sabiam que tudo é um jogo de retóricas;

O que está ocorrendo naquele país é que os tidos como incultos

estão aproveitando os excessos ideológicos dos "equivocados sinceros"

e estão criando uma forma de Poder que se pauta no mérito do trabalho,

no respeito à individualidade, na sanidade e na coerência,

sem precisar da conversão à ideologia imposta  pelo  governo. 

J.Nunes   

 http://www.literaturaimparcialista.com/2022/01/as-classes-dos-incultos.html


Afirmação  

Não sou o que a mente pensa,

nem mesmo o que o pensamento afirma.

O pensamento afirma qualquer coisa a qualquer momento;

afirma em um pensamento e dessa firma em outro. 

Sou o que é a consciência no silêncio da mente

e na comunhão com o coração. 

Ser não está na mente e nem em qualquer afirmação

que eu ou outros façam a meu respeito.

Ser está na ausência de pensamento e afirmações de ser. 

No momento que esquecemos o que afirmamos com a mente,

deixamos de ser este que com tanto custo afirmamos,

e por um instante e somos o a ilusão e desvaneio do pensamento,

no entanto até mesmo a nossa afirmação mais concreta de ser

é uma ilusão de ser, porém consolidada, 

por isso sempre retornamos a ela.

José Nunes Pereira 


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